02/05/2018

504

Há poucos meses atrás, sentei-me com a minha irmã S na parte traseira do autocarro 504 em direcção à Casa da Música, Porto, e falamos sobre a notícia negra que pairava os meus tios. O cancro no meu tio que começou no pulmão já tinha chegada ao cérebro e não havia mais nada a fazer. Iam parar a quimioterapia e esperar... Como todos sabem isso é o fim. É os dias contados. Imaginei aquela família, esposa e filhos, o desespero que é a situação, e não conseguia imaginar se fosse comigo. O aperto na garganta acompanhou-me horas e o silêncio esteve presente o resto do caminho.
O meu tio acabou por falecer a 08/04/2018 e como deseja poder dizer que não sofreu. Doença maldita!

Há poucos dias atrás, um terrível deja vu. O mesmo 504, o mesmo percurso, o mesmo destino, e o assunto é o meu pai (avô que tomou conta de mim toda a minha vida). Uma infecção no sangue, com o coração e rins a falhar...nenhum médico garante que ficará bem ou que melhorará, apenas que farão o possível. O mesmo caminho, com notícias horríveis e desta vez estou no centro delas. Aquilo que tentava imaginar que os meus primos estavam a passar, estou a sentir agora. A incerteza, o sofrimento de ver quem amamos desaparecer na nossa frente, a tortura das horas a passar sem saber se isso significa melhorias ou pioras...
A vida pode ser cruel e irónica.

Os meus avós, na minha cabeça continuam a ser uns super-heróis. As pessoas que podem e conseguem fazer tudo, e a realidade não é essa e a chapada da vida para me fazer perceber isso está a ser duro de aceitar.

Ainda me lembro perfeitamente do último dia normal que tivemos, antes de ele ir a primeira vez para o hospital. Foi apenas uma manhã normal, acordamos, fomos fazer os recados que tínhamos a fazer, tudo o mais normal e rotineiro que me lembro e depois tudo mudou. Nunca mais foi o mesmo. A vida deu uma volta de 360º e eu ainda não consegui por-me de pé.

Mas a vida é assim, e não podia escapar... As coisas não acontecem só aos outros.

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